A história de um pai (eu) na hora do (primeiro) parto!

A história de um  pai (eu) na hora do (primeiro) parto!

A minha filha nasceu no sábado às 17.50H. Sim, sou pai de uma menina, e a partir daquela hora ficou oficializado: a minha vida mudou para sempre. E já me estou a preparar para o que aí vem. Ela mostrou desde logo que quem manda é ela. Como contei num post anterior, o obstetra garantia-nos que o parto iria ser de cesariana (que se apressou logo a marcar para o dia em que estava de serviço no hospital), mas a minha filha acabou por nascer de parto natural. Com recurso a fórceps, é verdade, mas de parto natural. Isto depois de uma madrugada em que tudo correu pelo pior

Decidi desde sempre que iria assistir ao parto. E assisti! Na maternidade percebi logo que não poderia ser de outra maneira. Uma filha que contrariou as ordens médicas merece, no mínimo, um pai à altura. E protegi-me como pude. Vesti os mesmos boxers, as mesmas meias, o mesmo cinto , e o mesmo  relógio do casamento.  Precisava que a sorte me protegesse.  Se o casamento tinha corrido bem, tinha aqui adereços que podiam ajudar.

“Vesti os mesmos boxers, as mesmas meias,

o mesmo cinto , e o mesmo  relógio do casamento”

Mas, meus senhores, não é mesmo nada fácil… Entrei na sala de partos de peito feito, e a pensar que todos os homens que desmaiam, e que se sentem mal no lugar onde o seu rebento vai nascer, era uma cena demasiado mariquinhas. Tenho a dizer que somos, efetivamente, todos mariquinhas. É que a coisa corre bem durante os primeiros cinco minutos em que entramos na sala dos partos. Passei os últimos a três meses a ouvir que nós, pais, devemos ter um comportamento exemplar, manter a calma para passar muita oxitocina às mães. Agora o que eu pergunto é: quem é que é suposto acudir o futuro papá? Pois… Ninguém! Estamos entregues a nós próprios, e é se queremos sobreviver. Temos de nos aguentar mesmo à bomboca, e olhem que não é fácil. Principalmente para quem, como eu, ia ser pai pela primeira vez.

A partir do momento em que ouvi a enfermeira a dizer à futura mamã para fazer “fooooorrçççaaaa, issssoooo, fooooooooooooorçççççaaaaaaaa”, entrei num outro estado. Foi automático: a ansiedade tomou conta de mim, e entrei numa dimensão twilight. Parece que saí do meu corpo e estava a assistir a um parto que não é o da minha filha. Seguiram-se as náuseas. Senti, durante ligeiros momentos, a cabeça a andar à roda… Lembro-me de terem perguntado se estava tudo tranquilo, e eu ter respondido: “sim, está tudo tranquilo como o esquilo”, o que levou as enfermeiras a rirem-se, enquanto a M. fazia força para a nossa filha sair. Obviamente que não estava tudo tranquilo. Eu não via a hora de a minha filha chegar… Isto até parece mal, porque a mãe  é que estava ali a fazer a força toda, e a ultrapassar todas as contrariedades que o nosso médico obstetra previa para aquela altura.

“A ansiedade tomou conta de mim, e entrei numa dimensão twilight. Parece que saí do meu corpo e estava a assistir a um parto que não é o da minha filha”

Cada parto é uma experiência única para cada casal, e depende muito do médico que lidera o parto. E neste ponto não podia ter tido melhor sorte. Quis o destino que fosse o Dr. Pina, do Hospital Lusíadas, a realizar o parto. Fiquei a saber depois que ele é o mestre de todos os médicos do hospital.

Pelos relatos que ia ouvindo de colegas, e da ideia pré-concebida que ia tendo pelas cenas de filmes que ia vendo (pode ser totó, mas é verdade), sempre imaginei uma sala de partos cheia de protocolos, com os profissionais muito sérios, e que nós, pais, estaríamos presos, num cantinho, a um banco qualquer, e à espera que mãe tivesse na disposição, naquele momento de dor, de estarmos perto dela. Ah, e que os médicos eram uns grandes ditadores que não nos deixavam ver quase nada do que estivesse a acontecer.

Pois bem, a minha experiência foi completamente ao contrário. Já na sala de parto, e com a pulsação a mil, o Dr. Pina andava, descontraidamente, de um lado para o outro a falar ao telemóvel, enquanto ouvia a enfermeira a dizer à minha mulher: “isso, isso, isso, faça forrrççççaaaaa… força como se estivesse a fazer cocó”. E a minha mulher só gemia.   Entretanto, o Dr. Pina desapareceu por dois minutos, e quando dou por ele, já vem vestido com uma bata.

– “Olha, já vejo os cabelinhos da menina. Pai, quer vir cá ver?”, perguntou-me.

– “Eu??!!! Não!!! Deixe lá…”, respondi. Mas então não era suposto eu não saber nada do que se passava para ali para baixo, sob pena de não ter mais desejo de voltar a entrar por ali?

Encosto-me à M., e passo a ver tudo aquilo que ela vê. Só com a diferença que não estou a fazer força nenhuma. Com o tempo a passar, e com a menina sem conseguir sair pelo “canal” (é o termo usado pelo médico) ainda estar apertado, ouço: traz, traz, traz, traz. Parecia eu literalmente a cortar os atacadores de uns ténis apertados para os conseguir tirar do pé. Fiquei a saber depois que se tratou de uma episiotomia. Não é bonito de se ver, acreditem. E a partir daquele momento ficamos com a clara noção que vamos ficar imeeeeeennnnssssso tempo sem truca-truca.

É aqui também que medos surgem todos os medos.

– “Será que o bebé vem direitinho? Espero que não parta uma perna, um braço, o pescoço, nem desloque o nariz”, pensei eu. O medo que algo corra mal é terrível, e toma conta do corpo.

Mas nem cinco segundo depois, a menina estava a sair. Os músculos da cara descontrolam-se e mais parece que estão numa grande festa. Fazemos um sorriso rasgado, e, sem nos apercebermos muito bem, as lágrimas correm pelo rosto. É uma sensação do caraças, em que há poucas palavras para descrever.

E a nossa boca diz geralmente aquilo que o nosso cérebro não quer. Quando a menina está cá fora, alguém perguntou:

– “Alguém quer cortar o cordão?”.

 Eu que sempre disse que queria muito respondi, assustado:

– “Não, não quero!”.

Neste momento, já estava possuído pelo medo. O medo de fazer alguma coisa que não devia. O que vale, é que houve tempo para reconsidera.

– “Não, não. Afinal quero!”, disse de uma forma alarmista, daquilo que me recordo.

No momento que ia a cortar, parecia que estava completamente cego.

 “Olhe, mas é para cortar o cordão, não o meu dedo“, ouvi o médico a dizer.

Depois vieram cinco minutos de magia. A mãe cumpriu o desejo de fazer o contacto pele a pele (todos dizem que faz bem para a ligação entre bebé e progenitora), e eu tive direito a estar sozinho com a bebé ao colo. Esta criatura que está a chorar desalmadamente vai depende de mim para toda a vida, pensei eu, enquanto ganhava jeito para a ter confortavelmente nos meus braços.

Claro que isto dos cuidados e dos jeitinhos todos é mesmo coisa de pai e de mãe. Porque depois destes cinco minutos tiraram-me do colo para ir pesar, medir e vestir a bebé, e foi tudo à grande. Nas mãos dos enfermeiros a bebé parecia-me de plasticina.

A aventura começou, e já não há volta a dar

bebe

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