Uma história sobre avós que… nunca tive!

0
846

Morreu a minha última avó. Foi no final da semana que passou. Gostava de ter muitas histórias sobre ela, mas… não tenho. Foi a avó com quem eu tive mais contacto, mas que… nunca a senti como família. Invejo (no bom sentido, claro) as pessoas que têm uma grande família em que todos se dão lindamente bem, divertem-se e ajudam-se uns aos outros. Eu (quase) nunca tive isso.  Nunca tive avôs. O meu avô materno já tinha morrido quando eu nasci, e o avô paterno morreu quando eu tinha para aí cinco ou seis anos de uma doença que nunca me explicaram muito bem, mas que eu penso ter sido de cirrose. Sobravam as minhas avós… Mas elas nunca tiveram adoração nem tempo para um bebé que já vinha depois de muitos netos.  Já tinham a paciência esgotada para as minhas criancices. Também nunca tiveram uma relação de proximidade comigo por causa dos mais 300 km de distância que nos separavam.

“(…)ELAS NUNCA TIVERAM ADORAÇÃO NEM TEMPO PARA UM BEBÉ QUE JÁ VINHA DEPOIS DE MUITOS NETOS.  JÁ TINHAM A PACIÊNCIA ESGOTADA PARA AS MINHAS CRIANCICES”.

Com esta avó que agora morreu lembro-me de ter passado um período escolar, para aí de abril a junho. Apesar de ser uma criança tenho sensações que não era bem-recebido. Sentia que estava ali a mais. Era mais um empecilho do que uma boa companhia. Se calhar pela vida dura que tinha – trabalhava no campo. Mas mesmo assim foram os melhores momentos que tive como neto. E são esses momentos que recordo. De coisas tão simples como ter sido esta minha avó a ter comprado o meu primeiro saco de rebuçados. Foram os rebuçados que melhor me souberam.

Pub

Mas depois veio um vazio. Estive 15 anos (!) sem a ver, e reencontrei-a há quatro, num lanche. A M. também esteve presente e conheceu-a. Foi a única vez que a viu. É que a minha avó deixou logo a informação que só a M. só entraria em casa dela depois de… nos casarmos. A partir daí nunca mais tive contacto com ela. Voltei a vê-la no final da semana que passou, já dentro de um caixão. Dei-lhe um beijo de despedida. Foi a primeira vez que dei um beijo a um morto. O corpo estava gelado, nunca tinha sentido nada assim. Mas a minha avó soube-me àqueles rebuçados de infância.

“PARTIU A MINHA ÚNICA AVÓ VIVA, E EU SINTO QUE VIVI A MINHA VIDA SEM TER NENHUMA DELAS. E ISSO, POR MUITO QUE TENTE IGNORAR, MAGOA. MAGOA MUITO.”

Apesar de tudo, fiz ainda questão de estar na fila da frente da procissão que levou a minha avó da igreja para o cemitério. Mas não verti uma única lágrima. Já vi colegas e amigos a chorarem baba e ranho pelos avós. Sentirem amor genuíno por todos os momentos que passaram com eles. Há quem tivesse passado mais tempo com eles do que com os pais. Eu não verti uma única lágrima. Nem naquele momento, nem depois. Pelo longo caminho – um percurso que se faz em 5 minutos, naquele dia demorou mais de 20 – só me vinha à cabeça o sentimento que estou a tentar descrever agora. Partiu a minha única avó viva, e eu sinto que vivi a minha vida sem ter nenhuma delas. E isso, por muito que tente ignorar, magoa. Magoa muito. Gostava de, nem que fosse apenas por algumas vezes, ter vivido algumas das histórias que os meus colegas me contam sobre avós. Gostava de ter sentido amor pelos meus avós. Sinto cresci mais inculto por nunca ter ouvido histórias de sabedoria dos avós, e com um nível de amor incompleto, por não saber o que é amor de avó. Mas é a vida…

Para compensar toda a minha falta de afeto de avós, agora tenho uma filha que tem os quatro avós. E com imenso amor para dar. Tem a atenção de todos eles mais do que redobrada. Sinto no olhar deles. É um olhar ternurento e de posse. De quem ama aquele bebé com todas as forças. E a Bebecas é o orgulho desta família. Não há pessoa, cão ou canário que não saiba, na terra dos meus pais e da M., que a Bebecas existe e que é neta deles. E bom sentir que a Bebecas não é nenhum fardo para nenhum deles. Muito menos para o avô paterno, ou seja, o meu sogro. Nunca tinha visto ele nestes preparos. O homem é um mouro e um doente pelo trabalho. Mas quando a Bebecas aparece, o Mundo dele pára e parece que só estão os dois neste Planeta.

Finalmente tenho uma família em condições. E muitas vezes basta pensar nisto para ficar logo de coração cheio.


ohomemdecaxemira

LEAVE A REPLY