O que eu senti no regresso ao trabalho depois de ter sido pai…

O que eu senti no regresso ao trabalho depois de ter sido pai…

Um dos meus principais problemas depois de ter sido pai foi o … regresso ao trabalho. Custa, custa muito. Depois de três semanas sem pensar em chatices laborais, voltar ao ativo é doloroso. Eu já regressei há três semanas e tem sido uma tortura. Pelo nível de cansaço. Há dias em que já me apeteceu colocar molas nas pálpebras para manter os olhos bem abertos, de manhã de forma a ter sucesso na arte de me deslocar para o trabalho.

E porquê? Porque o trabalho de pai à noite continua. Tenho acordado pelo menos duas vezes durante a madrugada. Seja para ajudar a M. nas tarefas laborais das mudanças das fraldas – que reduziram um pouco desde que voltei ao trabalho – seja por causa da choradeira da Bebecas que, por vezes, não deixa ninguém pregar olho cá em casa [desconfio também que os vizinhos devem acordar sobressaltados de quando em vez]. Entre a trabalheira do acordar, dificuldade em adormecer, adormecer efetivamente, e voltar a acordar, os ponteiros do relógio continuam a andar, a um velocidade impiedosa, acabo por não conseguir acordar à hora que é suposto. Nestas três semanas não houve um único dia que tivesse chegado a horas. A hora da entrada é às 09.30H, e eu só chego por volta das 11h00, e parece que vou já com meio dia em cima, acompanhado de uma tareia. O nível de cansaço é tão grande que houve uma destas manhãs que quase que ia colocando as cuecas dentro da sanita (!) para serem lavadas. Mas acontecem outras coisas. Há pessoas que estão a falar comigo, eu abano com a cabeça em sinal de concordância, mas na verdade não estou a ouvir nada do que elas estão a dizer. O que se pode se tornar perigoso. Ainda posso estar a fazer um negócio qualquer sem saber. Até dou respostas a diálogos com a M. que saem completamente ao lado.

M. –Olha, então amanhã vamos sair mais cedo para termos tempo de ir às compras?

Eu – Sim, no andar de baixo dentro do guarda fatos.

M– Hã?!!!

Eu – … [Silêncio. Fiquei a pensar no que estava a dizer, e questionei-me várias vezes porque raio tinha respondido aquilo].

Mas apesar de me queixar dos choros da Bebecas – os ecos do choro duram o dia todo nos meus ouvidos -, a verdade é que passo o dia a ver a cara dela. A lembrar-me da cara dela. A ter constantemente saudades dela, e a pensar no que posso estar a perder. Ao final de três semanas sei que perdi muito. A sair de casa às 10h00 e a chegar às 21.00h, sinto que vou perdendo alguma da ligação completa que tinha com ela nas primeiras três semanas [era, por exemplo, comigo que ela se acalmava]. E a mãe que obrigatoriamente passa a estar com ela 24 horas por dias, na maioria dlas sozinha, acabou por construir uma ligação mais forte. Foi aqui que as coisas mudaram. E não há como. Só peço que eu e a M. tenhamos a paciência necessária para as coisas resultarem.

O mundo de pai e mãe torna-se oposto, porque as mães que têm a oportunidade de tirar cinco meses de licença, que é o caso da M., acabam por pensar exclusivamente na cria. Os homens passam a ter outras 100 mil coisas para pensar. A filha para mim é e será sempre a prioridade, mas se eu já sinto que no trabalho perdi o comboio da eficácia e da produtividade, e tenho de tratar de outros assuntos extra para tratar, é natural que tenha de compensar com trabalho em casa. Portanto, tenho vivido numa pressão de um lado para o outro. Há a pressão: entre aquilo que a minha mulher espera de mim, o meu patrão espera de mim, e ainda aquilo que eu tenho de fazer mais para ganhar dinheiro que se veja para ganhar mais algum para que as despesas sejam pagas ao final do mês, ainda para mais quando há agora mais um ser que depende de mim. 

“EM PORTUGAL, O DIREITO E O PARECER BEM ANDAM DE COSTAS VOLTADAS”.  

Voltando ao comboio da eficácia e à produtividade. Eu tenho andado desorientadinho de todo, porque tenho trabalhado às prestações. Para mais quando eu caí num erro crucial, que aconselho a todos não o repetirem. Os pais têm de usufruir obrigatoriamente de 14 dias úteis depois da criança nascer, mais de 10 dias extra para serem tirados quando o pai quiser, isto para além dos 30 dias seguidos que tem direito depois da mãe completar os cinco meses de licença.

O normal seria eu gozar os dois primeiros períodos todos seguidos [14+10]. Acontece que eu decidi armar-me em diferente e tirei períodos distintos. O que se sucede? Sucede que já há algum tempo que ando a trabalhar às mijinhas. Pouco tempo depois de regressar ao trabalho, pedi mais cinco dias de licença, dentro de pouco tempo estou a pedir mais cinco, e passado mais um pouco tempo vou entrar de férias. Entretanto, chega os 30 dias da segunda fase de licença, e… mais as férias. Conclusão: assim que o carburador quer começar a funcionar, ponho-o logo em ponto morto. Vou trabalhar, e passados poucos dias já estou a pensar no dia em que volto para casa.

Visto de fora, esta vida de férias e de licenças parece bem boa. Eu também pensava o mesmo. Mas é um assunto que me consome por pensar que o patrão poderá ver que afinal sou dispensável. Mesmo que esteja a gozar aquilo que é meu por direito. Mas, em Portugal, o direito e o parecer bem andam de costas voltadas.


ohomemdecaxemira

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