Dia da Mãe, uma mistura de sentimentos terrível

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Sou um homem cheio de sorte. É assim que eu me sinto cada vez que penso no assunto Mãe. Ainda tenho uma Mãe que continua a amar-me com todas as forças que tem, e tenho o corpo a transbordar de oxitocina desde que a M. se tornou mãe da nossa Bebecas.

Mas em ambos os casos, há o reverso da medalha. Tenho duas amigas muito próximas que vivem uma realidade bastante diferente. E este ano pensei nisto nesta perspetiva. Foi o primeiro. Não sei se estou mais sensível desde que me tornei pai, ou a morte da minha avó fez disparar o alarme de algum sentimento mais sensível que eu tenha, e que me tenha dado o sinal que eu já estou na linha da frente para perder a minha mãe

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Durante a maior parte da vida consideramos as mães umas chatas. Que estão sempre a fazer as mesmas perguntas, e a tratar-nos como ainda fossemos adolescentes. Ou mesmo ainda crianças. Eu, por exemplo, sempre que vou a casa dos meus pais – mesmo agora que levo a M. – o que torna alguns episódios embaraçosos – a minha mãe faz sempre questão de dar um raspanete. A brincar, claro. “Hoje tu estás de castigo. Vai para o teu quarto estudar. E é já.“, diz, quando estou na sala a ver televisão, por exemplo. Ou então, recorda os tempos em que levava o leite à cama.

Queixo-me de barriga cheia. Tenho uma amiga próxima que nasceu sem mãe. Não teve opção. Foi abandonada. Não teve o privilégio de achar que a mãe era uma chata, de tanto querer bem. De ter medo de perder, e de fazer tudo para a proteger, cuidar, amar… E pessoais com a mesma experiência a esta minha amiga há muitas. Mais do que aquelas que possamos imaginar.

Também vivi de uma forma intensa o dia da Mãe de hoje por ser a M. celebrar o primeiro Dia da Mãe. É uma felicidade que é muito difícil passar para palavras. A celebração só não foi mais intensa porque a Bebecas lembrou-se de nos brindar este dia com a maior birra de que nos lembramos desde o dia que ela nasceu. É que não poderia ter escolhido melhor o dia para fazer tanto berreiro. O fadário durou a tarde toda, levando a M. à loucura. Tínhamos tantos planos para celebrar o Dia da Mãe, e queríamos fazer tanta coisa, mas a Bebecas lembrou-se de dar uso às goelas e marcar a sua presença.

Mas estou mesmo a queixar-me do quê? Devia era de sorrir sempre que ela faz berreiro. Tenho uma outra amiga próxima que fez de tudo para conseguir ser mãe nos últimos três anos. Fez várias tentativas de ter um filho por inseminação artificial, e nenhuma delas resultou. Não consigo imaginar toda a pressão física e psicológica pelas quais esta minha amiga passou. Mas sei que foram bastante mais duras que aturar o choro da Bebecas todos os dias.

‘Então quando é que têm filhos?’. a pergunta aparentemente banal, pode ser afinal uma pergunta bastante cruel”.

Vivemos numa sociedade que olha de lado para os casais que não têm filhos. Qualquer um de nós faz sempre a pergunta sacramental – “Então quando é que têm filhos?”– quando vêm um casal que namora há algum tempo. Aliás, por vezes a pergunta é feita mesmo quando uma mulher (ou homem) está numa relação séria. Eu próprio me penitencio. Eu abordo muitas vezes este tema.  É uma pergunta banal, de circunstância, que muitas vezes serve só para meter conversa, mas que na maioria das vezes não temos muito bem a noção da complexidade da resposta. E a pergunta aparentemente banal, pode ser afinal uma pergunta bastante cruel.

Podemos estar a falar com pessoas como a minha amiga que não consegue de todo engravidar devido a um problema de saúde, podemos estar a falar de mulheres que têm graves problemas no seu sistema reprodutor que não o permitam, podemos estar a falar de homens que consigam desenvolver bons espermatozoides para conseguir dar a semente que permita gerar uma criança. Enfim, um sem número de coisas, que serão difíceis de digerir quando mais de meio Mundo está a comemorar o Dia da Mãe.


ohomemdecaxemira

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