Voltei a viver numa Ditadura-Parte 1

0
1553

Antes da M. dar à luz tive várias amigas (e amigos) a dizerem-me que a partir daquele momento a minha vida iria mudar para sempre. Disseram-me mudar, nunca ninguém me disse, ou avisou, que era para viver num ambiente como o anterior ao 25 de abril de 1974 (mas, calma meus senhores, muito mais pacífico).
Tendo em conta que me esconderam informação importante, eu estou aqui para colocar o dedo na ferida e dizer toda a verdade. Eu e a M. passámos a ser comandados  por 48 centímetros… de gente. Não há outra maneira de dizer isto. Andamos em sentido.
A primeira parte sobre esta nova vida na ditadura tem a ver com a amamentação.  Quem mais sofre aqui é mesmo a M. , que tem de responder às necessidade exigentes de madamme Bebecas quase no imediato. Ela decidiu (e eu concoredei, óbvio) que queria amamentar logo desde o início. É  a melhor decisão por todas as razões e mais alguma, mas não é fácil. Implica uma disponibilidade 24 horas/dias para dar de mamar a qualquer hora, a qualquer minuto, em qualquer lado. E quando eu digo em qualquer lado, é mesmo em qualquer lado.
Quando a fome é muita, e a Bebecas começa a gritar de tal maneira que mais parece que as goelas vão saltar para fora, só imagino ela é a dizer: “Parem, eu ordeno! Eu quero mamar aqui e agora”. E não há lugar a negociações, nem a pedidos especiais para esperar um bocadinho de maneira a chegar a um sítio pacato.
A primeira vez que tal coisa aconteceu foi num passeio pelo Parque das Nações. Estávamos no meio do passadiço que passa perto do Oceanário. O berreiro era infernal. Só vi a M. a sacar da mama de fora, enfiá-la na boca da Bebecas e continuar a caminhar como nada estivesse a acontecer. A sorte é que era de noite.

“Bebecas também já começou a ter um sentido oportunidade do catano. Costuma a acontecer mais ou menos quando os pais estão simplesmente a tentar aproveitar… um beijo”

Pub

Mas exemplos de birras no meio dos passeios é mato. O último foi num dos passeios por Mila Nova de Mil Fontes. Os berros são de tal forma agudos, que qualquer pessoa deixa de ter sanidade para pensar. É que os berros entranham-se nos ouvidos. Uma das vezes estávamos a sair de uma pastelaria, e o carro ainda estava longe. A Bebecas foi o caminho todo a berrar, até que poucos metros antes de chegarmos ao carro a M. não aguentava mãos, teve de subir a camisola, colocar a Bebecas na mama, e  entrar no carro, que ainda por cima estava num estacionamento apertado, sem nunca poder tirar a nossa Generala da mama.
Bebecas também já começou a ter um sentido oportunidade do catano. Costuma a acontecer mais ou menos quando os pais estão simplesmente a tentar aproveitar… um beijo. Já aconteceu eu e a M. estarmos a começar o bem-bom, o striko fight, enfim, aquilo que permitiu a que Bebecas estivesse neste Mundo, e ela começar num berreiro como se não houvesse um outro dia.
Assim não terá um irmão tão cedo. Aguenta e não chora!

LEAVE A REPLY