Voltei a viver numa Ditadura-Parte 2

0
778

A Bebecas já vai com mais de dois meses e há um chip que ainda não me entrou na cabeça. Nem a mim, nem à M. Continuamos a querer fazer programas, e a combinar coisas que fazíamos antes, quando na verdade já não dá para fazer. A vida que tinha antes já não dá. Esta realidade é bastante difícil de interiorizar e de viver.  É aquilo que realmente sinto nestes primeiros meses como pai.

O facto de estarmos por nossa conta, e não termos qualquer tipo de ajuda dos pais, faz com que tenhamos de ter lidado com esta realidade desde muito cedo. É esta realidade que está na base da segunda e última parte da série ‘Voltei a Viver num Ditadura’ – contei aqui a primeira parte.

Basicamente eu a M. continuamos a teimar a sair de cassa e a ir passear, e a Bebecas decide quando é que nós voltamos… para casa. E nem sequer hipótese de negociar. Ela manda e pronto.

Pub

No penúltimo dia que eu e a M. passámos em Vila Nova de Mil Fontes,  fizemos tudo certinho. Fomos jantar cedo (tipo 19.30H já estávamos batidos no restaurante), e tentámos despachar ao máximo. Mas mais uma vez não conseguimos jantar nada. A Bebecas abriu berreiro, mesmo no meio da sala do restaurante… cheio. Lá fui eu tentar acalmar. Fui para a casa de banho, para estar longe dos ouvidos de toda a gente, mas a Bebecas queria mesmo que toda gente ouvisse ela a chorar, e o berreiro ainda subiu mais. De certeza que ainda houve pessoas que chegaram a pensar que eu estaria de certeza a bater-lhe. A M. também tentou acalmar a Bebecas oferecendo a mama, mas ela… rejeitou. Perante este cenário a única solução era mesmo abandona do restaurante… sem ter conseguido jantar. E quando saímos, terminou tudo. A Bebecas já aceitou mamar fora, e depois o choro foi substituído por um sorriso…

Este é só um exemplo de como é a Bebecas que põe e dispõe das nossas vidas. E também tem decidido aquilo que não devemos vivenciar.

Domingo, 28 de maio. O Benfica jogou a final da Taça de Portugal. Estava todo lampeiro para assistir ao jogo contra o Vitória de Guimarães que nos podia dar a dobradinha, o triplete. Enfim consumar uma época fantástica. E consumou. Mas foram para outros benfiquistas – que não eu –  vivenciarem. É que a Bebecas lembrou-se de ter mais uma crise de choro intensivo, que não me deixou ver nada.   Nem eu nem a M. conseguimos descobrir a origem do choro. Desconfio também que nem a Bebecas sabe muito bem porque é que estava a chorar. É que nem sequer se pode dizer que foi um problema de horário. O jogo foi às 17.15H. Não era tarde para nada. É um horário perfeitamente normal. Começo é a desconfiar é que ela não é muito dada a comemorações, nem a dias de festas.

Sábado, 13 de maio. Jantar de amigos para ver o jogo do Benfica contra o Vitória de Guimarães, que poderia dar o título, e a atuação de Salvador Sobral na a Eurovisão. Tudo correu na maior, a Bebecas estava bem-disposta, e neste dia lá foi dia dela nos deixar jantar em condições (o que nem sempre acontece, como podem ver mais à frente).  Estava tudo perfeito até chegar ao preciso momento da votação da final da Eurovisão. Ela parece que adivinha os momentos-chave, é que parece mesmo que adivinha. A Bebecas tirou-nos a vivência daquele que foi um momento história. Vai dar outras vivências é uma verdade, mas privou-nos desta. E isso ela irá saber mais tarde. Ai vai…

“No quarto estávamos a tentar acalmar a Bebecas e vibrar os dez segundos em que ela fazia silêncios”

Na sala, todos os amigos a vibrarem com o facto de o Salvador Sobral ter liderado a tabela de votos do principio ao fim, que o levou à vitória da Eurovisão. No quarto estávamos eu e a M. a tentar acalmar a Bebecas e a vibrar os dez segundos em que ela fazia silêncio, ou então os vinte segundos em que ela decidia evacuar e libertar os gases que tanto incomodavam.

Fomos os primeiros a sair de casa. Aproveitámos o momento em que a Bebecas estava um pouco mais bem-disposta, e decidimos colocar-nos à estrada. Dez minutos depois estávamos a passar pelo autocarro do Benfica, ali na zona do Campo Pequeno, que ia em direção ao Marquês de Pombal para comemorar o Tetracampeonato. O Tetracampeonato, meus amigos. Foi a primeira vez na história vermelha que estávamos a comemorar tal coisa. E tinha mesmo o autocarro a passar com os craques ali ao lado, com eles todos disponíveis para comemorar o título com os adeptos, e eu nem uma foto para recordação consegui tirar.  Buahahahahahah…

Domingo, 20 de maio.  Globos de Ouro da SIC. Eu a M. montámos o estaminé na sala. O dia tinha corrido bem e o banquete estava programado. Pedimos pizza por telefone à Domino’s Pizza, mesmo com a  M. a dizer que ia começar a fazer dieta (Cof… cof…). Nós ali todos prontos para começar a comer, e a comentar os estilos das vedetas, e… foi tudo por água baixo. Novamente. A Bebecas acho que era hora de abrir berreiro. Este programinha caseiro acabou como sempre. Comigo e a M. a comer à vez, enquanto a Bebecas ia berrando sobrepondo a sua voz ao som da televisão.

Entretanto, por influência da Bebecas, eu e a M. acabamos por tentar restringir alguns horários. Ainda no outro dia um amigo nosso estava a tentar combinar um jantar de aniversário surpresa para o pai e a nossa conversa acabou por ser “ah, e tal… vê lá se combinas para antes das oito da noite, não vá a menina começar a resmungar muito”. E pronto, é isto, uma minorca de 58 centímetros a comandar a vida cá em casa… e a dos outros, quando pode. Aiiii………

LEAVE A REPLY