Desde que fui pai… perdi o nome!

Desde que fui pai… perdi o nome!

Desde que fui pai que passei a ser chamado e  tratado por… pai. O meu nome foi à vida. Deixei de ter identidade própria, e ascendi ao patamar de uma dentidade colectiva. Quando a Bebecas nasceu as enfermeiras e os médicos passaram imediatamente a tratar-me por pai – o “pai” agora isto, e depois faz mais aquilo, e vai buscar mais o camandro. Depois passou a ser a pediatra – “dispa a roupa à menina pai”“agora vamos pesá-la, pai”. As senhoras das lojas das roupas, acessórios e brinquedos para bebés também aprenderam pela mesma cartilha – “ai pai que roupa bonita para a menina”, ou então “pai esse brinquedo é mesmo giro para levar para a menina”.
Mas pronto. Até aqui tudo bem, um homem aguenta. Até porque dizem que tudo isto é o normal…
Agora ouvir isto da própria mulher é que custa a digerir e assimilar. Mais. Custa muito habituar. De um momento para o outros parece que a pessoa que decidiu casar-se comigo, e ter uma filha, de um momento para o outro teve um ataque de Alzheimer. Passou a ser “olha pai chegas-me a fralda”, ou “olha pai, agora tomas conta da menina enquanto eu vou à casa de banho”,e mais “olha pai como a menina está tão crescida”.
Isto já é mau, mas o que me deixa mesmo com olhos esbugalhados e com lavras a saltas é quando a M. resolveu também a chamar “filho”, principalmente quando ela discorda com alguma coisa. Como por exemplo esta cena que se segue.

Eu – “Olha, então logo vamos dar uma volta?”.

M – “Ai filho, não. Não vamos ter tempo para isto” .

E de que modo que é isto. Ainda estou para ver numa altura em que estejamos a fazer o amor, a M. ainda me diz. “Ai filho… aí não”. Ou então: “Agora o pai vai colocar a mão aqui, e outra ali”.
Pronto é neste ponto que estamos. Mas ao menos ainda posso dizer. Estou sem nome, mas feliz.

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