WC, o melhor refúgio de um pai desesperado

WC, o melhor refúgio de um pai desesperado

Este último mês foi passado em casa. Estive de licença parental. Mas não fui colocado verdadeiramente à prova. Tive a sorte de ter a M. ao meu lado a cuidar da Bebecas. Ela tem um daqueles trabalhos modernos que o Estado e o setor privado inventou que é ter um contrato de nove meses, que dura outubro e a julho. É já assim há pelo menos oito anos. Normalmente esta situação é sinónimo de instabilidade, este ano foi sinónimo de enorme estabilidade para mim.

Ter a M. ao meu lado durante este mês foi de uma extrema importância. Como disse não foi colocado verdadeira à prova durante a minha licença parental, mas tendo em conta aquilo que vivi também não faço muita questão em saber o que é ser posto à prova. Chego ao final de mês de licença parental a precisar de férias. Parece que levei um valente enxerto de porrada.

Os primeiros dias até correram bem. Vinha cheio de força, pica e com vontade de estar com a Bebecas o dia inteiro, depois de quatro meses a praticamente vê-la à noite.O estado de graça terminou ao final de semana e meia. Esta nossa Bebecas absorve muito tempo. De dias e à noite. Como já disse a Bebecas é uma bebé Hi Need, ou seja uma bebé que precisa sempre de muita atenção. Mais atenção do que foi convencionado como normal. Dormir não é com ela. E agora não é por causa das cólicas, como foi o primeiros três meses. Agora é só porque… sim. Ela não gosta de dormir. E há momentos em que parece que fica zangada com ela própria por ter sono, tal é o berreiro com que nos contempla.

Portanto as hipóteses eram apenas duas: ou ficar em casa a aturar isto em modo repeat, ou ir para a rua tentar apanhar ar na cara. Optámos quase sempre pela segunda hipótese. Mas esta decisão implicou quase sempre mais trabalho. Então o que se sucedeu? Muito simples. Tempo ainda mais ocupado. Quando a Bebecas não estava a chorar, a precisar de atenção ou a mudar de fraldas, era preciso arranjar o saco e toda uma panóplia de tarefas que implicam uma saída.

Viver esta realidade é duro. E o tempo deixou de existir.  Fazer planos? Não é possível. Estender no sofá enquanto a Bebecas dorme? Ela não deixa. Estar sossegado a comer e a ler o jornal? Impossível. Tentar esvaziar a cabeça, não pensar, e estar um bocadinho só a fazer simplesmente nada? Ui… acho que era mais provável ganhar o Euromilhões nos entretantos…

A exaustão já estava para transbordar o copo quando descobri aquela que atualmente me parece a melhor invenção depois das rodas: as casas de banho. No último mês devo ter ido mais vezes à casa de banho do que, seguramente,  no último ano. Conheço cada centímetro das duas casas de banho lá de casa, e devo ter seguramente passado por todos os wc’s, de todos os andares, de alguns dos centros comerciais mais conhecidos em Lisboa: Colombo, Amoreias, e Alegro Alfragide.

O WC é o melhor o refúgio de um pai desesperado. É o sítio onde ninguém nos pode impedir ir e em que é um ato solitário. As casas de banho estão para mim assim como Meca está para os islâmicos. Um templo sagrado, onde reina o sossego e a tranquilidade. Não se nega a ninguém e é um ato solitário. Passaram a ser os únicos momentos em consigo fazer uma das coisas que tanto queria: simplesmente nada.

Além de as minhas idas ao WC terem passado a ser mais frequentes, o tempo em que passo nelas também passou a ser muito substancialmente maior. Chego a conseguir estar neste compartimento durante o tempo equivalente a uma parte de um jogo de futebol (45 minutos). E como isto sabe bem. Estar a contemplar a vida de uma formiga que se passeia pelo chão, ou estar no Facebook a fazer scroll look sem parar, ou apenas estar a contar apenas as pingas que caiem de uma torneira.

Além de frequentas as minhas visitas à casa de banho são num horário constantes. Logo de manhãzinha, a meio da manhã, à tarde, a meio da tarde, e da madrugada dos dias que foram muito difíceis. Já aconteceu quase adormecer na casa de banho.

Ainda não abordei este com a M. (nem devo abordar, porque há coisas sobre as quais não se falam), mas tenho fortes suspeitas que ela já apanhou também o jeito e descobriu as vantagens de uma casa de banho. De um momento para outro passou a demonstrar um interesse oportuno por este compartimento da casa… várias vezes. Já aconteceu a M. a comunicar que ia à casa de banho quando a bebé começou a ficar mais agitada. Mas o momento mais flagrante foi num dia em que ela comunicou que ia à casa de banho, mas antes desta deslocação passou pelo escritório para ir buscar o IPad. Deu tempo para passar uma série de níveis do Candy Crush, o jogo que lhe ocupa a memória, enquanto eu ia tentando controlar a fera.

Não é falta de amor, nem não querer viver felicidade de ter um filho, mas muitas vezes, em situações de exaustão, há o jogo do empurra… e nós, casais, temos de estar preparados para isto.


ohomemdecaxemira

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